Natal Up-To-Date

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Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira
Cancioneiro de Natal, 1969

O planeta inteiro neste sangue

Quantos rios eu tenho no meu sangue
– Tigre – Eufrates, Nilo, Oxo, Ganges, Tejo…
quantas cidades célebres beberam desta água?

Quantas montanhas, desertos e vulcões
são e passaram?
Quantas civilizações?

– Ásia Menor, Mediterrâneo, Índia
México, Peru, China
Arábia, Nigéria, Etiópia…

Nas margens paralelas destas veias
que mais não são que as margens desses rios
quantos anseios por elas já ousaram?

O Planeta inteiro neste sangue
onde circulam todas as idades
onde coabitam esperanças e desejos.

Eugénia Neto
O Soar dos Quissanges
Lisboa, Ed. Presença, 2003

Nihil Novum

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Nihil Novum *

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egipto com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida – o mesmo estranho mal,
E o coração – a mesma chaga aberta!

Florbela Espanca       Sonetos

* Nada Novo