A sombra do quadrante

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O planeta inteiro neste sangue

Quantos rios eu tenho no meu sangue
– Tigre – Eufrates, Nilo, Oxo, Ganges, Tejo…
quantas cidades célebres beberam desta água?

Quantas montanhas, desertos e vulcões
são e passaram?
Quantas civilizações?

– Ásia Menor, Mediterrâneo, Índia
México, Peru, China
Arábia, Nigéria, Etiópia…

Nas margens paralelas destas veias
que mais não são que as margens desses rios
quantos anseios por elas já ousaram?

O Planeta inteiro neste sangue
onde circulam todas as idades
onde coabitam esperanças e desejos.

Eugénia Neto
O Soar dos Quissanges
Lisboa, Ed. Presença, 2003

Nihil Novum

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Nihil Novum *

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egipto com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida – o mesmo estranho mal,
E o coração – a mesma chaga aberta!

Florbela Espanca       Sonetos

* Nada Novo

Então eu seria uma criança feliz – Anónimo

Então eu seria uma criança feliz

Se à segunda-feira se pudesse correr livremente pelos prados
e as flores desabrochassem numa explosão de cor…

Se à terça-feira se contemplasse o céu
no seu mistério de um azul sem fim…

Se à quarta-feira se retirassem as máscaras
e a verdade brotasse…

Se à quinta-feira a alegria entrasse nos corações…

Se à sexta-feira todos se dessem as mãos…

Se ao sábado os pais contassem aos filhos histórias de encantar…

Se ao domingo a beleza do silêncio se renovasse em cada ser…

Então eu seria uma criança feliz,
e a minha canção voaria por sobre as casas,
dançaria entre os ramos das árvores,
e à hora do crepúsculo repousaria sobre os mares do mundo,
tornada canção de embalar,
a encher de paz e de ternura os sonhos das crianças.

Anónimo